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MULHERES SÃO MELHORES EM INOVAÇÃO: O DESIGN CENTRADO NO SER HUMANO.

Grupos de mulheres são melhores em termos de gerar inovação. Ponto.

Ao considerar os resultados quantitativos dos estudos realizados para minha pesquisa de doutorado, ao analisar os grupos melhor classificados em termos de inovação (ver Agradecimentos), é possível inferir que eles são predominantemente composto por mulheres. Nesses estudos, os grupos com mais mulheres tendem a ter suas proposições percebidas como mais inovadoras por painéis de juízes. Com base nos “números” resultantes desta pesquisa, um grupo deve ser composto por, pelo menos, 65% de mulheres para estar entre os grupos melhor avaliados no quesito “produto percebido como inovador.”

Parece que os grupos de mulheres são melhores em inovação porque eles sabem como cuidar dos outros, ou seja, são melhores para entender as necessidades dos outros. O que é extremamente útil ao projetar “futuros preferidos” para as pessoas.Embora não seja possível aprofundar esta questão aqui, há um ponto interessante para destacar: a “Ética do Cuidar” (Gilligan, 2014; JC Tronto, 1999). A ética do cuidar pode ser entendida como um quadro de referências para examinar a nossa vida moral e política (J. Tronto, 1995). Para ser breve, ela descreve uma moral que sustenta que

Homens não são bons em cuidar, então, não só porque eles têm escapado desses deveres através de uma divisão público / privado das responsabilidades, mas também porque a nossa construção da masculinidade faz com que seja mais difícil para os homens desenvolver as habilidades de cuidar. (JC Tronto, 1999, p. 115)

A moral patriarcal sustenta que “empatia e carinho,” em vez de serem vistos como pontos fortes dos seres humanos devem ser

entendidos como “femininos” porque as emoções e os relacionamentos foram associados com as mulheres e vistos como limitadores da sua capacidade para a racionalidade e autonomia. (Gilligan, 2014, p. 89)

Portanto, é possível fazer sentido dos “números” resultantes dos estudos citados a partir da perspectiva da ética do cuidar. A “tendência do sexo feminino” por obter melhores proposições para a inovação parece ser um reflexo dessa situação criada pelo patriarcado onde as mulheres são moralmente impulsionadas a enfrentar uma “hierarquia de gênero que privilegia o masculino (razão e ego) sobre o feminino (emoções e relacionamentos)” (Gilligan , 2014, p. 95).

Além de ser uma moralidade extremamente questionável, é importante reconhecer que “empatia e carinho são pontos fortes do ser humanos” (Gilligan, 2014, p. 89), não fraquezas. É tanto uma força como o saber “do que é possível, o que é factível, o que é correto, aqui e agora” (Gadamer, 2004, p. Xxxiv). Sabedoria essa que é principalmente “atribuída” a capacidade masculina de racionalidade.

Como um pensamento abrangente, acredito que mulheres com potencial inovador são “qualquer ser humano” capaz de praticar a “verdadeira solicitude”, que “não é a de tomar conta do outro, mas em vez disso, deixar o Outro vir livremente em seu próprio ser autonomo – como oposição a prover (Versorgung) ao Outro “(Gadamer, 2000, p. 284). Do que eu aprendi durante estes estudos, qualquer pessoa com este tipo de “verdadeira solicitude” (o que parece ser identificado comMulheres como a Ética do Cuidar denúncia), deve ter um maior potencial para a criação de propostas inovadoras. Como se os números resultantes destes estudos pudessem ajudar a discutir uma falsa representação dicotomizada de gênero em relação à natureza humana (Gilligan, 2014, p. 90). Como se que as mulheres com potencial inovador, em vez de representarem indivíduos com genes “XX”, descrevessem uma espécie complexa de natureza humana inovadora que poderia juntar “pensamento com emoção e o ego com os relacionamentos” (Gilligan, 2014, p. 89). “Natureza” (entre aspas) que os homens “XY” também podem praticar.

Em resumo, eu acredito que os atuais estudos, em certo sentido, identificaram  o aqui e agora patriarcal em que ainda vivemos. Como a Ética do Cuidar indica, “mulheres” (entre aspas) são melhores para trabalhar em grupos; “mulheres” são melhores para compreender e integrar as necessidades de um grupo, ou seja, são melhores em “cuidar.” As “mulheres” são melhores, talvez, porque a nossa construção da masculinidade faz com que seja mais difícil para os homens desenvolver as habilidades do cuidar. O que leva a questionar: não é essa característica “feminina” o elemento fundamental do design centrado no ser humano? Deixe um comentário sobre o que você pensa a respeito.

Agradecimentos

Este texto apresenta alguns dos resultados de uma pesquisa de doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento realizada por Mauricio Manhães na Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil. Esta pesquisa é sobre a tentativa de compreender os impactos do preconceito nos esforços inovadores, e é apoiado pela CAPES, uma agência do Ministério da Educação do Brasil. Os números que suportam esta pesquisa são o resultado de um conjunto de dados de quatro estudos (formando 18 grupos válidos na Alemanha, Brasil, Índia, Itália e Polônia), três painéis independentes de juízes e um painel de juízes (envolvendo 36 juízes oriundos do Brasil, Colômbia, Alemanha, Itália, Suécia e Reino Unido). No final, os quatro estudos tiveram uma participação de 99 pessoas (55 mulheres e 44 homens).

Referências

Gadamer, H.-G. (2000). Subjectivity and intersubjectivity, subject and person.Continental Philosophy Review, 33, 275–287.

Gadamer, H.-G. (2004). Truth and Method (Second Edi., p. 601). London: Continuum.

Gilligan, C. (2014). Moral Injury and the Ethic of Care: Reframing the Conversation about Differences. Journal of Social Philosophy, 45(1), 89–106. doi:10.1111/josp.12050

Tronto, J. C. (1999). Care Ethics: Moving Forward. Hypatia, 14(1), 112–119. doi:10.1353/hyp.2005.0067

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DESIGN NÃO É ENGENHARIA: A PONTE DIFERENTE

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Você sabe qual é a diferença entre Engenharia e Design? Quais seriam as diferenças entre um Designer Gráfico e um Engenheiro Gráfico?

A diferença tem apenas uma palavra: pontes.

Por falar nisso, Design e Engenharia possuem a mesma origem. Para sermos honestos, uma criou a outra. Como diria o Herbert Simon, ambas disciplinas partem do mesmo interesse: criar futuros artificiais preferidos. Essa mesma origem pode ser verificada na palavra “engenharia.” Ela vem do Latim ingenium, que significa algo ou alguém que apresenta “genialidade ou brilhantismo; que tende ao invento.” Mesma origem, porém com direções diferentes.

Definitivamente, trata-se de uma questão epistemológica. Mas, não é tão simples perceber a diferença abismal que isso cria. Não basta ter um crachá com a palavra “Designer” escrita nele para que qualquer coisa feita por uma pessoa seja design. O mesmo se aplica para o/a Engenheiro(a) e a Engenharia. Mas,… Voltando à diferença entre as duas disciplinas: Design Gráfico e Engenharia Gráfica. É claro que ambas lidam com a “aplicação de estratégias para resolver um problema, com o intúito de obter um determinado resultado.”

Repertório de Significados

Com certeza existem diferenças em estratégias, ferramentas e métodos entre o Design e a Engenharia. Mas apenas isso não seria suficiente para justificar uma diferenciação entre as disciplinas. A própria Engenharia possui diversas e variadas estratégias e métodos, muitos dos quais são similares aos do Design. E vice-versa. O que se pode dizer ao final, é que a diferença reside no fato de que a Engenharia deve fazer exatamente o que dita a expectativa (imagine a contrução de uma ponte ou um avião que precisam suportar uma determinada carga). O Design deve fazer algo que amplie o repertório de expectativas. Em outras palavras, o Design precisa ser inovativo.

Um Engenheiro Gráfico deveria aplicar métodos e ferramentas para, com eficiência, produzir um resultado (logo ou layout, etc) aderente às expectativas de um determinado contexto social. Assim, um logo ou layout “futurista” deveria ter todos os elementos óbvios do que se “entende” por futuro. Na outra direção, um(a) Designer Gráfico deveria ampliar o repertório de significados de um determinado contexto social. Ou seja, o logo ou layout dela(e) deveria adicionar novos elementos ao repertório do que se “entende” por futuro. Caso um(a) Designer Gráfico crie um layout que corresponda alegre e exatamente às expectativas, ela(e) está fazendo um trabalho de Engenharia.

Como você sabe, fazer Design é designar novos significados para uma entidade. Em outras palavras, fazer Design é atribuir um signo a uma entidade de tal forma que mude ou crie uma nova percepção a respeito dessa entidade. E isso é a essencia da inovação. Ou seja, não há inovação sem Design… Sempre que qualquer outra disciplina produz uma inovação, ela o faz através de um processo de Design. Obrigatoriamente! Se não fosse assim, não haveria sentido nomear uma disciplina “Design Gráfico” ou “Design de Serviço.” Se não for para focar na inovatividade, não há razão de se fazer Design. E isto faz com que aspectos como “embelazar” (no caso do Gráfico) ou “paparicar” (no caso do Serviço) sejam corretamente vistos como uma parte insignificante, efeitos secundários, sub-produtos de um projeto de Design.

Diferentes Nomes

Claro que Design não é “apenas” inovatividade. Mas, devido à definição precípua do termo design (do Latim de + signare), ele precisa estar profundamente ligado à inovação. Caso contrário, seu nome seria outro: gestão, ciência ou engenharia. Ora, bolas!!! E, nem por isso eu estou dizendo que a relação entre Design e inovatividade é simples ou fácil. Como um exemplo da complexidade dessa relação, veja este texto que escrevi sobre as diversas disciplinas ligadas ao termo “serviço.”

Sendo assim, a verdadeira “razão de ser” do Design é o foco na inovatividade. É isto que faz do Design um processo de criação de conhecimento. E, como você sabe, existe um só meio de criar conhecimento: conectar caixas. Conectar caixas diferentes. Existe uma metáfora precisa e bela para isso: a construção de pontes entre os diferentes. Ela é baseada no conceito de arco hermenêutico (Ricoeur, 2007, p. 121), essa metáfora é inspirada no filósofo Francês Paul Ricoeur e a insistência dele

on building bridges between concepts that are otherwise seemingly incompatible and between which there might be controversy. (Jahnke, 2010, p. 106)

Enquanto a Engenharia aponta para o controle, a disciplina, a definição e a separação de processos para atingir eficientemente objetivos definidos, o Design aponta para uma outra direção: a combinação, a conexão (leia mais sobre “conectar caixas” aqui), a construção de pontes entre os diferentes.

Pelo o que eu saiba, a melhor definição para Design é precisamente esta: Design é construir pontes entre os diferentes. Duvida? Quando você pensa que a alguns anos atrás o telefone não tinha relação nenhuma com a máquina fotográfica e com a máquina de datilografar… E agora faz parte do nosso repertório o fato de que todas essas coisas estejam integradas em uma única: o smartphone. Isto é um perfeito exemplo de como o Design pode inovar “construindo pontes entre os diferentes.”

Inovatividade?

Uma última questão: Você sabe o que “inovatividade”?

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Conexão com o Autor

Caso a sua organização queira se conectar com o autor para explorar os temas desses textos, existem duas alternativas: palestras ou workshops.

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A foto da Ponte Hercílio Luz é do Alan Pedro / Agencia RBS

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