DESIGN NÃO É ENGENHARIA: A PONTE DIFERENTE

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Você sabe qual é a diferença entre Engenharia e Design? Quais seriam as diferenças entre um Designer Gráfico e um Engenheiro Gráfico?

A diferença tem apenas uma palavra: pontes.

Por falar nisso, Design e Engenharia possuem a mesma origem. Para sermos honestos, uma criou a outra. Como diria o Herbert Simon, ambas disciplinas partem do mesmo interesse: criar futuros artificiais preferidos. Essa mesma origem pode ser verificada na palavra “engenharia.” Ela vem do Latim ingenium, que significa algo ou alguém que apresenta “genialidade ou brilhantismo; que tende ao invento.” Mesma origem, porém com direções diferentes.

Definitivamente, trata-se de uma questão epistemológica. Mas, não é tão simples perceber a diferença abismal que isso cria. Não basta ter um crachá com a palavra “Designer” escrita nele para que qualquer coisa feita por uma pessoa seja design. O mesmo se aplica para o/a Engenheiro(a) e a Engenharia. Mas,… Voltando à diferença entre as duas disciplinas: Design Gráfico e Engenharia Gráfica. É claro que ambas lidam com a “aplicação de estratégias para resolver um problema, com o intúito de obter um determinado resultado.”

Repertório de Significados

Com certeza existem diferenças em estratégias, ferramentas e métodos entre o Design e a Engenharia. Mas apenas isso não seria suficiente para justificar uma diferenciação entre as disciplinas. A própria Engenharia possui diversas e variadas estratégias e métodos, muitos dos quais são similares aos do Design. E vice-versa. O que se pode dizer ao final, é que a diferença reside no fato de que a Engenharia deve fazer exatamente o que dita a expectativa (imagine a contrução de uma ponte ou um avião que precisam suportar uma determinada carga). O Design deve fazer algo que amplie o repertório de expectativas. Em outras palavras, o Design precisa ser inovativo.

Um Engenheiro Gráfico deveria aplicar métodos e ferramentas para, com eficiência, produzir um resultado (logo ou layout, etc) aderente às expectativas de um determinado contexto social. Assim, um logo ou layout “futurista” deveria ter todos os elementos óbvios do que se “entende” por futuro. Na outra direção, um(a) Designer Gráfico deveria ampliar o repertório de significados de um determinado contexto social. Ou seja, o logo ou layout dela(e) deveria adicionar novos elementos ao repertório do que se “entende” por futuro. Caso um(a) Designer Gráfico crie um layout que corresponda alegre e exatamente às expectativas, ela(e) está fazendo um trabalho de Engenharia.

Como você sabe, fazer Design é designar novos significados para uma entidade. Em outras palavras, fazer Design é atribuir um signo a uma entidade de tal forma que mude ou crie uma nova percepção a respeito dessa entidade. E isso é a essencia da inovação. Ou seja, não há inovação sem Design… Sempre que qualquer outra disciplina produz uma inovação, ela o faz através de um processo de Design. Obrigatoriamente! Se não fosse assim, não haveria sentido nomear uma disciplina “Design Gráfico” ou “Design de Serviço.” Se não for para focar na inovatividade, não há razão de se fazer Design. E isto faz com que aspectos como “embelazar” (no caso do Gráfico) ou “paparicar” (no caso do Serviço) sejam corretamente vistos como uma parte insignificante, efeitos secundários, sub-produtos de um projeto de Design.

Diferentes Nomes

Claro que Design não é “apenas” inovatividade. Mas, devido à definição precípua do termo design (do Latim de + signare), ele precisa estar profundamente ligado à inovação. Caso contrário, seu nome seria outro: gestão, ciência ou engenharia. Ora, bolas!!! E, nem por isso eu estou dizendo que a relação entre Design e inovatividade é simples ou fácil. Como um exemplo da complexidade dessa relação, veja este texto que escrevi sobre as diversas disciplinas ligadas ao termo “serviço.”

Sendo assim, a verdadeira “razão de ser” do Design é o foco na inovatividade. É isto que faz do Design um processo de criação de conhecimento. E, como você sabe, existe um só meio de criar conhecimento: conectar caixas. Conectar caixas diferentes. Existe uma metáfora precisa e bela para isso: a construção de pontes entre os diferentes. Ela é baseada no conceito de arco hermenêutico (Ricoeur, 2007, p. 121), essa metáfora é inspirada no filósofo Francês Paul Ricoeur e a insistência dele

on building bridges between concepts that are otherwise seemingly incompatible and between which there might be controversy. (Jahnke, 2010, p. 106)

Enquanto a Engenharia aponta para o controle, a disciplina, a definição e a separação de processos para atingir eficientemente objetivos definidos, o Design aponta para uma outra direção: a combinação, a conexão (leia mais sobre “conectar caixas” aqui), a construção de pontes entre os diferentes.

Pelo o que eu saiba, a melhor definição para Design é precisamente esta: Design é construir pontes entre os diferentes. Duvida? Quando você pensa que a alguns anos atrás o telefone não tinha relação nenhuma com a máquina fotográfica e com a máquina de datilografar… E agora faz parte do nosso repertório o fato de que todas essas coisas estejam integradas em uma única: o smartphone. Isto é um perfeito exemplo de como o Design pode inovar “construindo pontes entre os diferentes.”

Inovatividade?

Uma última questão: Você sabe o que “inovatividade”?

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A foto da Ponte Hercílio Luz é do Alan Pedro / Agencia RBS

NÃO EXISTE NADA “FORA DA CAIXA”: O SEGREDO DA CO-CRIAÇÃO

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Não. Você não pode pensar “Fora da Caixa.” Ninguém pode. O que acontece geralmente é que as pessoas nem exploram as suas próprias caixas. E quando fazem um pouco de exploração, pensam que estão saindo das caixas… Mas não, não estão não!

De fato, não há nada lá “fora”: nós não podemos sair “fora da caixa.” Hans-Georg Gadamer apresenta o conceito de “espelho distorcido” que oferece um ótimo argumento para discutir a relação entre as nossas mentes e os desafios da co-criação (Gadamer, 2004, p. 278):

The self-awareness of the individual is only a flickering in the closed circuits of historical life. That is why the prejudices of the individual, far more than his judgments, constitute the historical reality of his being. (Itálicos são do texto original)

Seguindo essa lógica, dá para dizer que cada um de nós entende a si mesmo e aos outros partindo de um ponto histórico específico e particular: a caixa. Todas as experiências que nós temos durante a vida deixam marcas indeléveis em nossas histórias particulares e em nossa mente… Isso cria uma “caixa” mental. E, é a ela que damos o nome de preconceito. É a partir dessa caixa, de nossospreconceitos, que entendemos a nós mesmos e ao mundo que nos cerca.

Fora da Caixa?

O que se espera que aconteça quando somos chamados a “pensar fora da caixa”? Já pensou nisso? Uma boa resposta seria: criar novos conhecimentos! Ou seja, espera-se que as pessoas envolvidas criem novos caminhos para resolver problemas ou vencer desafios que seriam impossíveis de fazer com base em velhas perspectivas. Esses tipos de objetivos só podem ser atingidos com a criação de novos conhecimentos. Em outras palavras, eles só podem ser atingidos a partir de um “aumento do potencial de agir.” Isto é, justamente, a definição filosófica para a “criação de conhecimento.”

E como é que se criam novos conhecimentos? Para entender como isso acontece, é necessário perceber que o conhecimento

is created in the spiral that goes through seemingly antithetical concepts such as order and chaos, micro and macro, part and whole, mind and body, tacit and explicit, self and other, deduction and induction, and creativity and efficiency. (Nonaka & Toyama, 2003, p. 02)

O conhecimento é criado pela fricção. Não é “ficção;” é fricção abrasiva! Sendo assim, você só consegue criar novos conhecimentos quando se conecta com pessoas diferentes de você. Nem precisa ser pessoalmente, pode ser através de leituras, vídeos, etc. Mas a melhor forma é mesmo o bom e velho contato social face à face. Você tem que realmente se conectar, tem que construir uma ponte sólida entre você e o diferente.

Pontes entre os diferentes

Ok. Você nunca vai conseguir pensar fora da caixa. Mas você pode explorá-la melhor e, talvez, consiga até expandí-la. De qualquer forma, para fazer essas coisas, existe uma só alternativa: conectar caixas. Caixas diferentes da sua… Existe uma metáfora bela e precisa a respeito dessa conexão: construir pontes entre os diferentes. Ela é baseada no conceito de hermeneutical arc (Ricoeur, 2007, p. 121), essa metáfora generativa é inspirada pelo filósofo francês Paul Ricoeur e na sua insistência

on building bridges between concepts that are otherwise seemingly incompatible and between which there might be controversy. (Jahnke, 2010, p. 106)

Então, não existe o fora da caixa da mesma forma que não existe a criação solitáriade conhecimento. Para poder criar algo realmente novo, você precisa conectar a sua caixa a outras caixas. Mas não a qualquer tipo de caixa, é obrigatório que elas sejam bem diferentes da sua.

E nisso reside o desafio e o segredo da co-criação. Não adianta de nada fazer uma “sessão de co-criação” se todos os participantes forem parecidos. Essa seria uma “sessão de confirmação”: uma sessão que confirma as crenças de como as coisas são e como devem ser feitas. Mas, dificilmente, uma sessão entre iguais irá ampliar a compreensão de como as coisas poderiam ser ou como elas poderiam ser feitas. Simples assim.

A melhor forma de fazer uma sessão de co-criação é quebrando alguns mitos sobre como um grupo inovador deve ser.

A ilustração deste texto foi emprestada da University of Chicago.

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