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MANUAL PARA A GESTÃO “DA” CHUVA. OU: COMO DIFICULTAR A INOVAÇÃO.

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Manual para fazer chover: vista todo o time com cores que remetam ao azul e ao branco. Essas cores lembram as nuvens e as águas. Faça duas filas com os membros da “tribo” e comece a entoar cânticos e bater os tambores. Como por mágica, a chuva virá. Caso não venha, a culpa é toda da equipe. Ela não soube gerir a chuva. E ponto.

Este texto trata sobre a gestão PARA a inovação.

Para além do óbvio trocadilho com o termo Rainmaker, que nos meios corporativos americanos quer dizer o “cara que faz chover” (o profissional que faz a “coisa” acontecer), gostaria de propor uma reflexão sobre a diferença entre interligar as palavras “gestão” e “inovação” por DE ou PARA.

Gestão PARA a inovação

Da mesma forma que é complicado imaginar uma “gestão DA chuva”, acredito que seja igualmente complicado imaginar uma “gestão DA inovação.” O termo em inglês innovation management foi, ao meu ver, erroneamente traduzido para o português. A conotação desse termo em inglês se refere muito mais a uma “gestão inovadora,” a uma gestão sensibilizada para a inovação, a uma gestão PARA a inovação. Afinal, não se trata de innovation’S management (gestão DA inovação), nem de management OF innovation (gestão DA inovação). A simples utilização do “DA” ao invés do “PARA A”, faz toda uma diferença de abordagem, muitas das vezes, gerando impactos negativos.

OBSERVAÇÃO: Claro que o termo “gestão” está longe de significar apenas Planejar, Organizar, Dirigir e Controlar (PODC) os fatores de produção. Muito pelo contrário. Toda pessoa que já tentou Solucionar problemas; Organizar e alocar recursos; Comunicar, dirigir e motivar outras pessoas (detalhes aqui), sabe que isso tudo não é nada parecido com a operação de uma “máquina.”

Ao consultar fontes mais confiáveis a respeito de innovation management (o conceito, em si, é visto com certa desconfiança pela academia: uma busca na base de dados Scopus revela poucos artigos com baixos índices de citação), você verá que nenhuma delas apresenta receitas de gestão DA inovação, não há nenhuma referência ao “controle” da inovação. Por uma razão muito simples: porque apesar de que, como a chuva, a inovação ser um fenômeno de extrema importância para a sobrevivência de organismos e organizações, não é possível “gerir” a chuva. Ou a inovação. Na verdade, assim só se dificulta a ocorrência da inovação.

Cultura Organizacional

O que é possível e altamente recomendável é ter um modelo de gestão sensível à inovação, uma gestão PARA a inovação. A gestão PARA a inovação tem muito a ver com cultura organizacional, com implantar políticas e programas de educação ambiental voltados ao respeito à água e suas fontes. Mas, “controlar” a inovação é algo simplesmente impossível. É igual a controlar a chuva. Por enquanto, ainda é impossível. No entanto, é possível implantar coletores e reservatórios de água. É possível gerir a água. Mas a chuva, não. Vide a seca de 2013/2014 no sistema Cantareira em São Paulo. Da mesma forma pode ocorrer com a inovação.

E, no caso da inovação, ainda tem um efeito muito mais perverso. Ao se tentar controlar a chuva, o máximo que vai acontecer é assistir uma bela apresentação de dança folclórica (aliás, assistir a eventos culturais promove a inovação: #ficaadica). No caso da inovação, ao se tentar controlar seu surgimento a única coisa que se consegue é justamente reduzir as chances de que ela ocorra. Sim. É como canalizar os rios, concretar os vales, construir prédios sobre as matas, etc.

O que gera um clima frutífero, com chuvas inovativas regulares, é justamente manter um ambiente favorável à inovação. E isso pode ser muito mais simples do que se pensa. Para continuar nas metáforas idílicas: a gestão da inovação é como caçar borboletas. É possível perseguir, capturar e ter algumas delas presas por um alfinete num belo quadro na sala de reuniões. Ou, pode-se cultivar um jardim. Este cultivo do jardim organizacional é a gestão PARA a inovação.

Outros mitos sobre inovação

Uma das formas de iniciar esse cultivo é quebrando alguns mitos.

P.S.: Apenas para melhor contextualizar essa questão do “DE/PARA”, devo dizer que entendo como justificável o fato de que uma perspectiva absolutista do século 18 (que faz muito sentido para bens tangíveis) ainda permeie os nossos discursos. Perspectiva essa de que o homem estava destinado a controlar todos os elementos. Como diz o filósofo Alemão Hans-George Gadamer:

“Even where life changes violently, as in ages of revolution, far more of the old is preserved in the supposed transformation of everything than anyone knows, and it combines with the new to create a new value.”

Fotografia: Publicada no Indian Country Today em Janeiro de 2013. Para mais fotografiass, clique aqui.

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